Um chefe que faz pedidos absurdos de um jeito fofo, uma mãe que sempre fala que a filha está bonita porque emagreceu, um amigo “sincerão” que sempre diz “a verdade na sua cara” – e você se sente pra baixo. O que todas essas coisas têm em comum? São violências disfarçadas!
Mas por que identificar a violência importa?
Tem muitas situações que acontecem nos nossos relacionamentos e que passam despercebidas por nós. Às vezes é um pedido de um chefe, um comentário aparentemente positivo sobre o nosso corpo, ou um conselho não solicitado de um amigo.
Tudo isso tem uma aparência de ser socialmente aceitável, porque parece “só” um pedido, “só” um elogio, “só” um conselho. Mas a verdade é que, no fim do dia, a gente se sente machucado, e acaba nem entendendo por quê.
Saber como identificar a violência implícita nessas situações pode ser um importante ponto de virada para mudar esse padrão nas suas relações. Mas o começo de tudo está em entender o que de fato é a violência.
O princípio por trás da violência
Violência não é só xingar, bater ou matar. Ela vai muito além disso: como explica a filósofa francesa Simone Weil,
"A violência transforma em coisa aquele que lhe é submetido. Quando exercida até o fim, ela transforma o homem numa coisa, no sentido literal da palavra: ela o transforma num cadáver."
Simone Weil
Ou seja, violência é toda atitude, fala ou movimento que, de alguma maneira (literal ou simbólica), coisifica alguém.
Exemplos de violência oculta.
No trabalho:
Um líder que diz que vai dar um feedback “para o seu bem”, mas faz duras críticas a você na frente de todo mundo, te desqualificando:
“Isso é erro de principiante – você já tem quantos anos de empresa e não sabe disso? A gente quer atingir outro patamar aqui, mas se continuar assim não vai dar!”
Obs.: Tem vários pontos críticos neste feedback. Se você quiser aprender mais sobre como analisar e dar melhores feedbacks, leia nosso artigo sobre.
Na família:
Um pai que gosta de levantar cedo para começar a viagem em família se levanta, toma café da manhã, mas os filhos ainda não acordaram. Quando eles finalmente acordam, diz
“Mas vocês são muito preguiçosos, hein? Desse jeito vocês não vão muito longe na vida! Tem que acordar cedo pra fazer as coisas”
→ Parece uma forma de cuidado (e de certa maneira pode até ser), mas a estratégia aqui sai pela culatra – a mensagem mais forte que ficou foi um rótulo e um julgamento, uma coisificação.
No relacionamento amoroso:
Durante uma discussão, o namorado diz:
“Você está criando problema onde não tem. Inclusive, você é cheia de inventar problema, né?”
→ Parece uma observação sobre um exagero da outra parte, mas acaba invalidando e ignorando todos os sentimentos e necessidades dela.
Na amizade:
Uma amiga “sincerona” que diz o que pensa, sem se preocupar se o outro irá se machucar, algo como
“Ai amiga, ninguém te fala, mas eu vou dizer, você tá ficando gordinha. Tem que ver isso, hein! Bora entrando numa academia e fechando a boca.”
→ Parece um cuidado e preocupação genuína (e pode ser mesmo!) Mas o jeito que é expressado não leva em consideração o que a outra pessoa pode sentir, se ela queria mesmo ouvir essa opinião, enfim… existem jeitos mais saudáveis de demonstrar que se importa com a saúde de alguém – mas o sincericídio com certeza não é um deles.
O que não é violência?
A gente também precisa saber diferenciar o que é uma violência, do que talvez só chega para nós como um desconforto. Ou seja, não é só porque você não gostou tanto do que a pessoa disse, que seja violência.
Algumas situações que não são violência:
- Estabelecer limites: “Eu tô com muita raiva, não quero e não vou falar sobre isso agora. Depois a gente volta nesse assunto.”
- Interromper uma atitude/fala violenta: “Pode parar! Isso que você está falando é racismo” – em uma situação em que uma pessoa está falando algo racista em público para outra pessoa, por exemplo. Interrupções constantes podem ser uma forma de violência, mas neste caso, interromper é uma forma de freá-la.
- Apontar um fato: “Esta é a terceira vez em que você se atrasa para um combinado nosso”. – Parece uma forma de acusação, mas, se for verdade, é nada mais que…um fato, certo? A questão aqui é como a pessoa vai conduzir a conversa depois disso e como você vai lidar com isso. Você vai se enfurecer, ou propor novos acordos?
Como mudar o padrão violento nas relações?
O primeiro passo para viver relações menos violentas (no trabalho, na família, no relacionamento amoroso etc.) é justamente reconhecer o que existe de violência, seja ela implícita ou não, e que padrões ela tem.
Dinâmicas passivo-agressivas, ordens disfarçadas de pedidos, hipervigilância mascarada de cuidado, tudo isso pode ser transformado em algo mais saudável e que melhore a convivência entre as pessoas.
A partir daí, o jeito é partir para o diálogo, tratando diretamente com as pessoas envolvidas sobre o problema, e não tratando elas como o problema.
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