“Um antídoto para comparação e autocrítica” — uma conversa com Carolina Nalon

Dias atrás fui convidada para dar uma entrevista para uma revista, o tema era sobre como diminuir a comparação. Muitos de nós estão hoje ultra conectados nas mídias sociais o que nos faz ter acesso a recortes da vida de milhares de pessoas, recortes esses que muitas vezes nos mostram uma vida “melhor que a nossa”. Estamos imersos então num contexto digital de imagens, de estímulos, exigências e também de comparações. Ser “especial”, “diferenciado”, “único” parece uma meta imposta em cada área da vida, das relações ao trabalho. Segue abaixo algumas das reflexões que fiz sobre os impactos dessa lógica nas relações humanas e os caminhos possíveis para nos reconectarmos com o essencial.

1. Em um mundo que nos cobra ser especiais, destacar-se, ter diferencial, como cultivar a beleza de ser apenas quem se é com simplicidade e presença  sem se sentir “menos” por isso?

A primeira coisa é termos consciência de que somos frutos de uma época. E a época que estamos vivendo é a da Sociedade do Desempenho, como diz o filósofo Byung-Chul Han. Introjetamos o capataz para dentro da gente,  compramos a ideia de que tudo depende da nossa força de vontade e, com isso, nos cobramos sem trégua.

Hoje, nos comparamos com muito mais pessoas do que costumávamos há 30 anos. Antes, a comparação acontecia dentro de um círculo limitado: amigos, vizinhos, colegas. Hoje, ela se estende a centenas de pessoas com vidas editadas e idealizadas nas redes sociais. Isso não é casual: vivemos na chamada economia da atenção, onde empresas como a Meta nos oferecem acesso gratuito às mídias sociais porque, na verdade, nós somos o produto.

Quando a pergunta começa com “em um mundo que nos cobra…”, acho fundamental pararmos para pensar: que mundo é esse? Precisamos refletir sobre ele com consciência crítica, em vez de sermos sequestrados por seu modo de operar. Só esse exercício já começa a nos libertar da ideia de que precisamos ser mais, ou menos,  alguma coisa.

2. Você trabalha com grupos, empresas, famílias. Quais padrões coletivos de comparação mais adoecem as relações humanas hoje? E como a linguagem que usamos alimenta ou quebra esses padrões?

Creio que os principais padrões que adoecem as relações humanas hoje são os da individualidade extrema, ou melhor, da ideia de que é possível ser autossuficiente e da positividade tóxica, esse discurso que diz que “você consegue tudo” e que a felicidade plena e constante é uma meta possível.

Esses padrões se sustentam por uma linguagem que normaliza o julgamento e o binarismo. Expressões como: “você é fraco”, “ela não dá conta”, “fulano é melhor” nos silenciam e nos pressionam. Palavras como essas alimentam uma cultura de comparação e exclusão.

A Comunicação Não Violenta propõe outro caminho: uma linguagem que descreve, escuta, nomeia sentimentos e necessidades. Uma linguagem que nos reconecta à nossa humanidade comum.

3. Muita gente tem dificuldade de se validar porque aprendeu a olhar para si mesma com os olhos de fora, como se fosse o olhar do outro que dá valor. Como recuperar a própria medida de valor e construir relações menos dependentes de aprovação?

Uma das definições de violência que utilizo nos meus treinamentos é da filósofa Simone Weil: “a violência é o que transforma o ser humano em uma coisa”. Quando só enxergamos valor em nós mesmos a partir do que conseguimos produzir, estamos nos coisificando, como se nossa vida só tivesse valor se for útil, como se fôssemos um meio para um fim.

É claro que vivemos em uma sociedade na qual precisamos produzir para viver. E essa produção pode ser profunda e prazerosa. Eu, por exemplo, gosto muito do meu trabalho e me dedico bastante a ele. Mas nosso valor pessoal não está atrelado ao desempenho. Nosso valor está na própria vida em si.
Na vida torta, cheia de momentos bons e ruins, de expectativas não realizadas, de fracassos.

Contardo Calligaris dizia: “Eu não quero ter uma vida feliz, quero ter uma vida interessante.”E esse “interessante” não tem a ver com os lugares que você vai e posta nos stories no fim de semana. Tem a ver com como você amadurece, como lida com seus sentimentos, como encontra paz em meio ao caos. Isso é interno, silencioso, profundo.

Praticar a autocompaixão é uma das coisas mais valiosas que podemos fazer por nós mesmos.

4. A comparação costuma ser um ruído que atrapalha a escuta genuína de si e dos outros. O que muda, de maneira prática, quando começamos a nos comunicar a partir da empatia em vez da comparação silenciosa?

Eu diria que mais do que a empatia, é a compaixão que nos tira do looping da comparação.

A empatia nos permite sentir o que o outro sente. E, ainda assim, podemos continuar comparando ou invejando. A compaixão vai além: é o desejo genuíno de que todos se livrem do sofrimento. Porque o sofrimento é parte inevitável da vida. Até, ou especialmente, na vida de quem parece ter tudo perfeito. E se é tudo tão perfeito, uma hora essa pessoa vai perder, porque todos nós perdemos.

Quando compreendemos que o sofrimento vem do apego a uma felicidade condicionada aquela que depende de algo externo para acontecer, passamos a enxergar que todos estão, de algum modo, sofrendo ou adoecidos.


E a compaixão nasce daí: de um desejo sincero de que possamos nos libertar disso. Nesse ponto, tudo muda. A inveja e a comparação diminuem.

E fica mais fácil se contentar com o que se tem e com quem se é.

Se você gostou dessa conversa com Carolina Nalon e quer transformar essas reflexões em prática no seu cotidiano ou na sua organização, fique atento aos próximos conteúdos e experiências formativas sobre Comunicação Não Violenta.

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